sábado, 14 de junho de 2014

O BANQUETE DO CORDEIRO

Resumo de O BANQUETE DO CORDEIRO, de Scott Hahn


"Só é possível compreender a Missa através do Apocalipse. E só é possível compreender o Apocalipse através da Missa."



PARTE 1 - O DOM DA MISSA
- Cristo bate à porta
- O que Scott Hahn viu na sua primeira Missa
- História do sacrifício no AT
- A Missa para os primeiros cristãos
- Entendendo as partes da Missa

PARTE 2 - A REVELAÇÃO DO CÉU
- "Voltei-me para trás e vi..."
- Quem é quem no paraíso
- Armagedom
- O Dia do Juízo: Sua misericórdia faz tremer

PARTE 3 - A REVELAÇÃO PARA O POVO
- Levantando o véu da noiva: como ver o invisível
- O combate da fé: fight or flight?
- Apocalipse como um álbum de família
- O rito tem poder: a diferença que a Missa faz

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PARTE 1 - O DOM DA MISSA

- Como disse João Paulo II, a Missa é o céu na terra. Essa supressão do espaço-tempo fica óbvia no início da Liturgia Eucarística, quando o sacerdote diz "corações ao alto" e a assembléia canta o "Santo, Santo Santo" unida à multidão de anjos e de toda a beatitude celeste.

- Existe uma relação estreita entre o Fim do Mundo e o Apocalipse, o Apocalipse e a Missa, a Missa e a Segunda Vinda de Cristo, a Segunda Vinda de Cristo e as atribulações da vida do cristão, enfim, entre a vida diária do cristão e o Banquete do Cordeiro.

- A Missa não é inteiramente conduzida por nós. Nós homens tomamos parte de uma liturgia celeste. Na Missa, céu e terra se encontram.

- Cristo é o sacerdote verdadeiro, da ordem de Melquisedec. Cristo é o sumo-sacerdote, a vítima, o altar e Deus.

- A Missa é o evento mais importante de que um católico pode participar, mais do que se encontrar pessoalmente com o Papa.
- São João é o único evangelista que chama Jesus de "Cordeiro de Deus". Os outros títulos messiânicos de Jesus destoam desse título tipicamente joanino: Leão de Judá, Rei, Deus, Salvador, Messias, Sacerdote, Profeta, todos magnificentes.

- Isaac é uma figura Christi, uma sombra de Cristo no Antigo Testamento. Filho único, Jesus carrega o lenho nos ombros subindo o monte para ser sacrificado. De fato, o primeiro versículo do primeiro Evangelho, Mt 1, 1, abre assim: Jesus Cristo, filho de Abraão.

- Com a construção do Templo de Jerusalém, por volta de 960 a.C., Israel oferecia diariamente sacrifícios a Deus. Todo dia, os sacerdotes ofereciam dois cordeiros, um pela manhã e outro pela tarde, para expiação dos pecados do povo. Havia ainda oferendas privadas.

- O Templo fora construído onde Melquisedec oferecia pão e vinho, onde Abraão oferecera seu filho Isaac, onde Deus prometera ao povo um Salvador davídico. Finalmente, no Templo eram feitos sacrifícios idênticos ao de Abel: o sacrifício do cordeiro.

- Quando Jesus estava diante de Pilatos, o evangelho de São João acrescenta esta nota: "era o dia de preparação da Páscoa. Era aproximadamente a sexta hora" (Jo 19,14). A sexta hora era quando os sacerdotes estavam começando a esfolar os cordeiros pascais.

- O Evangelho diz que nenhum dos ossos de Jesus foram quebrados para que fosse cumprida a Sagrada Escritura (Jo 19,36). Exôdo 12, 46, diz que o cordeiro pascal não deve ter os ossos quebrados. Além disso, a esponja no ramo de hissopo era prescrita na Lei para espalhar o sangue do cordeiro salvador (Ex 12, 22).

-Às vésperas de o Templo de Jerusalém ser destruído pelo Imperador Romano, por volta do ano 70d.C., os judeus sacrificaram milhares e milhares de animais. Aquele culto havia se convertido num automatismo sem sentido. Nem todo o sangue derramado do mundo poderia apagar os pecados da humanidade. Era necessário um "sacrifício perfeito", como diz a Oração Eucarística, ou seja, o sacrifício de um Santo, Santo, Santo: o sacrifício do próprio Deus.

- À luz do Antigo Testamento, portanto, as fórmulas da Missa adquirem sentido pleno. "Senhor, nós te oferecemos o corpo e o sangue do Teu Filho, o sacrifício aceitável que traz a salvação para o mundo inteiro. Senhor, olhai com bondade para o sacrifício que entregaste à Tua Igreja... (Oração Eucarística IV). Na Oração Eucarística I, esse aspecto fica ainda mais evidente.

- Por alguma razão misteriosa, Cristo não quis encerrar a sua Páscoa num momento historicamente datado. Ele quer que nós hoje tomemos parte na Nova Aliança. Para renovar a Aliança com Deus, o cristão deve literalmente comer a carne do cordeiro pascal - cordeiro que é o pão ázimo da eucaristia. Percebe como a Antiga e a Nova Aliança se fundem?

- Mahatma Gandhi tem uma frase ótima: "worship without sacrifice is an absurdity of the modern age".

- O sacrifício é uma necessidade do coração humano. Mas antes de Jesus nenhum sacrifício era suficiente. Diz o Salmo 116: "Como poderei retribuir ao Senhor por todo o bem que Ele me fez? Levantarei o cálice da salvação e invocarei seu santo nome". Como poderei retribuir? Indo à Missa.

- O capítulo 11 da 1ª Carta de São Paulo aos Coríntios é um breve tratado sobre o tema. Lá o Apóstolo diz expressamente "aquilo que recebi vos transmito", ou seja, a tradição da ceia passada de geração a geração; os elementos eucarísticos do pão e do vinho, que são em verdade corpo e sangue; a ordem pessoal e direta de Jesus para celebrarmos esse mistério; a expressão "até que Ele venha", ou seja, o sentido escatológico da Missa.

- O ancestral litúrgico da Missa é o TODAH hebraico. A palavra significa "ação de graças", tal como a palavra grega Eucaristia. O sentido social é o banquete sacrificial compartilhado com amigos para celebrar e agradecer a Deus. O TODAH começa relembrando um risco iminente de morte e então celebra a ação libertadora/salvífica de Deus que livrou o homem da morte. Um exemplo é o Salmo 69. Outro exemplo clássico é o Salmo 22, que Jesus cita na cruz: começa com um choro de lamentação à beira da morte e se encerra com uma nota triunfante da salvação divina. Tanto o TODAH quanto a Eucaristia expressam seu culto em palavra e em refeição, ambos incluem o sacrifício incruento de pão e vinho.

- Sem querer, os rabinos antigos fizeram uma previsão profética "Nos tempos messiânicos, todos os sacrifícios cessarão, salvo o todah. O todah jamais cessará, porque ele é eterno." (Pesikta Rabbati, I, p. 159).

- Vale a pena ver de novo o final do capítulo 3, onde o autor expõe como a Missa na Patrística já tinha a mesma estrutura de hoje. Santo Inácio de Antioquia, São Justino Mártir e Santo Hipólito de Roma são referências de leitura obrigatória.

ENTENDENDO AS PARTES DA MISSA

          É um erro pensar que a oração deve ser puramente espontânea, livre, criativa. Desde o cristianismo primitivo já existia na Igreja uma lex orandi. A Sagrada Escritura conduz a uma Liturgia, a qual conduz a "the good sense of order".

             As fórmulas e as rotinas não são coisas más. As fórmulas de cumprimento, agradecimento, despedida são parte essencial dos relacionamentos humanos. Todos ensinam seus filhos a dizer "obrigado". Nenhuma esposa se cansa do "bom dia, meu amor". Com efeito, o amor verdadeiro implica rotina e constância.

* sinal da cruz

- Há registros de que os Padres da Igreja já faziam o sinal da cruz, o qual tem o poder de bloquear toda bruxaria porque Satanás é impotente diante da cruz de Nosso Senhor.
- O sinal da cruz resume o Credo num gesto. Proclamamos a fé trinitária na qual fomos batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, renovando com esse gesto a aliança do Batismo. 

- Professamos que a nossa redenção está na cruz de Nosso Senhor. Assim o maior pecado da história se torna o mais misericordioso ato de amor e revelador do infinito poder divino. Pela cruz participamos da natureza divina (2Pe 1,4).

- O sinal da cruz resume pois os mistérios da Trindade, Encarnação e Redenção. No Oriente, é feito com o polegar preso ao mindinho, simbolizando ainda a dupla natureza de Cristo divino e humano.

- A renovação do juramento do Batismo remete à noção de testemunho. O cristão é chamado a testemunhar sua fé, a combater o bom combate com a armadura de Efésios 6. Assim, o sinal da cruz é como a promessa que uma testemunha faz diante do tribunal com a mão sobre a Bíblia. Porque não somos espectadores da Missa, mas sim partícipes e testemunhas. Somos chamados a dizer a verdade a respeito da fé apostólica, até ao martírio de cruz se preciso.


* ato penitencial
- Se estamos diante de um tribunal, quem está sendo julgado? Nós mesmos! E quem me acusa? Eu mesmo!

- A Didache já estabelecia que a confissão dos pecados devia preceder a nossa participação na Eucaristia.

- Ninguém está isento de pecado (1Jo 1,9 e Prov 24,16).

- No Kyrie, suplicamos misericórdia. Isso resume bem o que a Missa é: a misericórdia de Deus. 

- A fórmula do Kyrie é bíblica (Sl 6,2 e Mt 15, 22).

* glória
- O Glória inicia com outra fórmula bíblica, aquela da noite de Natal. Os versos seguintes ecoam os louvores angélicos de Ap 15, 3-4.

- No Glória, testemunhamos o poder de Deus. A oração cristã não deve apenas pedir e agradecer, mas também louvar e exaltar a Deus.

* leituras

- Um católico que vai diariamente à Missa terá lido a Bíblia inteira em três anos, pois o calendário litúrgico está planejado para esse fim.

- Por isso, o Lecionário é um excelente antídoto contra a tendência protestante de ler apenas os livros preferidos da Bíblia.

- Aliás, o fato histórico é que a Bíblia nasceu na Missa. Como assim? O cânon do NT foi uma forma de restringir quais livros poderiam compor e ser lidos durante a Liturgia. A Missa é pois o "habitat natural" da Bíblia. Observe que São Paulo diz que a fé vem pelo ouvido (Rm 10,17), e não pela leitura. Até porque no cristianismo primitivo não existia indústria gráfica (a imprensa só foi inventada quinze séculos depois). Ademais, era caríssimo comprar a cópia de um manuscrito na Antiguidade. Além disso, havia poucas pessoas alfabetizadas. Por acaso a fé dos primeiros cristãos era inconsistente porque não liam a Bíblia?

- Jesus está presente na Palavra como está presente na Eucaristia (Dei Verbum 21).

- Assim como o Verbo está presente na hóstia insossa, o Espírito Santo opera em nós através de uma homilia aparentemente "sem graça".

* credo

- Eis os dogmas pelos quais os primeiros cristãos sofreram prisão e morte no Império Romano! Precisa dizer mais alguma coisa?

- A respeito daqueles artigos da fé os cristãos também derramaram sangue em guerras fratricidas: muitas heresias ameaçaram a fé trinitária, a dupla natureza de Cristo e outros pontos inegociáveis definidos em Nicéia (325) e Constantinopla (381).

- As Igrejas orientais cantam o Credo, não o recitam mecanicamente, porque o Credo traz a Boa-Nova evangélica que é a razão da nossa alegria!

* ofertório

- Neste ponto, podemos abrir uma digressão: Os adventistas acusam os católicos de negligenciarem o Antigo Testamento. Mas onde estão no culto protestante o sacrifício, a oferenda, os perfumes do Levítico? Ora, somente a Igreja Católica preserva a integralidade do culto bíblico do Pentateuco ao Apocalipse, como veremos adiante.

- Nas igrejas orientais, os católicos se reúnem durante a semana para fabricar o vinho e produzir o pão comunitários. O gesto é lindo e significa que nós oferecemos eclesialmente o que somos e o que temos. Deus pode receber o que é temporal e transformar em eterno, o que é humano e transformar em divino. Entrega, irmão, todo o ser na Missa, oferece as tuas angústias, mas também os teus talentos, o teu pecado e a tua esperança, enfim todo o teu ser deve ser oferecido ao Senhor na mesa eucarística (Lumen Gentium 34). Tudo o que temos é levado ao altar para ser santificado em Cristo!

- Por isso, o sacerdote mistura o vinho e a água. Simboliza as duas naturezas de Jesus, divina e humana, misturadas. Assim o mistério da Encarnação perdura em nós que somos igreja, corpo místico de Cristo - igreja unida a Ele como os dois líquidos que jorraram de Seu lado aberto. 

- O Pai não recusa essa oferta.

* corações ao alto

- Este é o verdadeiro sentido do "arrebatamento" de Ap 1:10, cuja interpretação causa polêmica entre os protestantes. A visão mística de São João é detalhada em Ap 4, 1-2. Que arrebatamento é este? O versículo Ap 1:10 é a única vez em toda a Bíblia que se chama o primeiro dia da semana de Dia do Senhor: HE KYRIAKÉ HEMERA. O autor do Apocalipse estava celebrando uma Missa no domingo.

- Vai começar a Liturgia Eucarística... São João está vendo anjos por toda parte! Tem anjos voando neste lugar, no meio do Povo, em cima do altar, subindo e descendo em todas as direções. Não sei se a Igreja subiu ou se o Céu desceu... só sei que está cheia dos anjos de Deus porque o próprio Deus está aqui...

- Em Ap 4,8 canta-se o SANTO, SANTO, SANTO (Trisagion, no Oriente).

- A Oração Eucarística evidencia que a Nova Aliança não é um livro; é uma AÇÃO. É a ação eucarística. Isso é um absurdo? Só se for absurdo bíblico, pois Jesus diz "fazei isto em memória de mim" (1 Cor, 11). Ele não disse "escrevam isto" ou "leiam isto", mas "fazei".

- Aliás, nada mais bíblico do que a narrativa da instituição da eucaristia em Lucas 22. E 1Cor 11 não deixa dúvidas de que os primeiros cristãos repetiam esse ritual da "ceia do Senhor", que era uma ordem dada pelo próprio Jesus, como Ele insistiu duramente na Sinagoga de Cafarnaum.

- A Igreja Católica leva a sério o discurso de Cafarnaum. Se ali o Senhor estivesse falando em metáforas, poderia ter explicado de outras formas, como fazia com as parábolas em que explicava o que significa a "semente", os "espinhos", o "dono da vinícola" etc. Ao contrário, o Senhor insiste no sentido literal daquelas palavras e interpela os discípulos se eles também querem ir embora diante da dureza do seu ensinamento. Ora, ninguém quer ser mal-entendido na hora da morte. Na angústia da morte, na hora extrema, as pessoas falam a sério. Até hoje os exegetas e filólogos não conseguem aceitar que Sócrates estivesse realmente se referindo à dívida de um galo na hora da morte.

- É plenamente bíblico crer na presença real de Cristo na Eucaristia. É a atitude mais bíblica a fazer!

- Deus quer que a Sua Aliança seja recordada, isto é, renovada. Como os hebreus têm suas festas e um calendário litúrgico para re-lembrar as ações salvíficas de Deus na história de Israel, a Missa é a renovação da Nova Aliança. Por ordem de Jesus: "fazei isto em memória de mim". E São Paulo agrega: "até que Ele venha".

- A memória da Nova Aliança não é imaginativa. É concreta, sensível, palpável. É literalmente "carne". Ao entrar numa Missa liturgicamente bem preparada, nos ajoelhamos e nos curvamos, cantamos, ouvimos o sino, inalamos o incenso, vemos o cálice da salvação levantado, pegamos e provamos o Senhor vivo. "Now I know why God gave me a body: to whorship Him". Agora eu sei porque Deus me deu um corpo de presente: para dar glória a Ele no culto com seu Povo.

* amén

- São Jerônimo conta que, na Roma do século IV, os templos pagãos tremiam quando os cristãos pronunciavam "O Grande Amém".

* Pai Nosso

- A liturgia é um encontro de família.

- Tanto o Pai-Nosso quanto a Missa pleiteiam o céu na terra.

- Se renovamos as promessas do Batismo, somos "crianças" nascidas de novo, então podemos chamar o Ser Supremo com essa intimidade... "Pai Nosso", Abba.

- Existe uma conexão estreita entre o maná do AT e o pão da Eucaristia. Na oração do Pai Nosso pedimos esse "pão nosso de cada dia" que é o maná eucarístico.

* rito da comunhão

- A igreja é o corpo místico de Cristo. Nele somos um. Essa koinonía é expressa no abraço da paz.

- O abraço da paz é um gesto que simboliza o mandamento de Jesus: "Reconcilia-te com o teu irmão primeiro antes de se aproximar do altar" (Mt 5, 24).

- O AGNUS DEI QUI TOLLIS PECCATA MUNDI rememora: a Páscoa do Êxodo; a Misericórdia de Deus; a profecia de João Batista no Jordão; a Paz da redenção.

- Em seguida, pronunciamos as palavras do centurião romano: "Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra..." (Mt 8,8).

- Enfim, recebemos Aquele que louvamos no Glória e professamos no Credo, Aquele que é a Salvação esperada desde o princípio e que virá no futuro para julgar os vivos e os mortos e o Seu reino não terá fim.

* ritos finais

- O nome antigo é Divina Liturgia. O termo Missa vem da expressão latina com que o sacerdote despede os fiéis: "Ite, missa est". Literalmente, se trata de um envio, de uma missão. Em inglês, not a dismissal, but a commissioning.

           Deixamos a Missa para experimentar na vida ordinária o mistério de sacrifício que acabamos de celebrar.

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PARTE 2 - REVELAÇÃO DO CÉU

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Presença real de Cristo na Eucaristia





A presença real de Cristo na Eucaristia se dá em detrimento da substância do pão. Ou seja, existe na hóstia consagrada apenas o acidente pão, mas a substância é do corpo de Cristo. O Catecismo da Igreja Católica afirma que a "ausência" é inversa, ou seja, a ausência é de pão, do contrário tem-se a heresia da empanação (crer que Jesus é consubstancial com o pão).

Importante: quando ocorre uma transubstanciação comum (capim -> carne de vaca), os acidentes também mudam. No caso do mistério eucarístico, muda a substância mas os acidentes permanecem os mesmos.

Fica a dúvida: o potencial embriagador do vinho consagrado é mera aparência ou é substancial?

Padre Paulo também faz um histórico da fé protestante com relação a Eucaristia. Os luteranos também acreditam que Jesus está presente ali, embora na forma branda da heresia da empanação. Lutero dizia que a união dos fiéis no culto é que produzia a presença de Cristo nas espécies. Já os calvinistas não acreditam de maneira nenhuma na presença real, afirmando que se trata apenas de um símbolo.

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Vale muito a pena rever a explicação aristotélica dada pelo Padre Paulo Ricardo. A distinção entre SUBSTÂNCIA E ACIDENTE serve para refutar o direito ao aborto, pois a pessoa humana mantém sempre a mesma substância desde a concepção até a fase adulta, embora sob acidentes diversos. Nós não somos capazes de "ver" a substância de uma coisa; só os acidentes são acessíveis aos nossos sentidos imediatos. Para ver a substância, é preciso o "olho" da inteligência ou da fé.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Acerca de "Desenvolvimento e Cultura: o problema do estetismo no Brasil", de Mário Vieira de Mello

Em Desenvolvimento e Cultura: o problema do estetismo no Brasil, Mário Vieira de Mello aborda o conflito entre o princípio ético e o princípio estético e a prevalência deste último em nossa cultura. Afirma o autor que o homem brasileiro - embora culto e instruído - apresenta uma tendência a julgar os conceitos teóricos segundo critérios emocionais ou estéticos. Tal tendência deve-se ao fato de o Brasil ter ingressado na Idade da Razão após o romantismo e, não possuindo uma tradição filosófica sólida, procurou atualizar-se quantos ao modismos em voga no Velho Continente: além do romantismo, o positivismo e, na época em que o livro foi escrito, o nacional-desenvolvimentismo.

A ideologia desenvolvimentista é, segundo Vieira de Mello, responsável por afastar o Brasil das grandes tradições espirituais da Civilização. Prometendo conduzir o país a um caminho de progresso, autonomia e autenticidade, o pensamento desenvolvimentista da década de 1960 arremete contra todas as iniciativas anteriores das elites brasileiras, acusando-as de simplesmente macaquear os usos europeus e, no plano cultural, dedicar-se demasiadamente ao beletrismo e à literatura de salão.

O autor concorda que o passado cultural brasileiro seja pobre, mas afirma que, apesar disso, é o nosso passado. A análise mais importante dos primeiros capítulos é a investigação que Vieira de Mello faz sobre as raízes do nosso pensamento desenvolvimentista, provando a vinculação estreita deste com o bom e velho marxismo. Uma ideologia fundada nos pressupostos de Karl Marx e Mannheim não pode, por definição, pretender-se "autêntica", genuína ou nacional, exatamente porque importa da mesma forma as idéias do estrangeiro.

No Prefácio, o autor responde à critíca de Antônio Paim segundo quem a obra prefere o princípio ético ao estético, o que acarretaria inevitalmente uma posição moralista e parcial. Vieira de Mello responde que "o conflito entre o ético e o estético conduz à dilaceração espiritual justamente porque é constituído pela oposição de duas tendências irredutíveis uma à outra mas igualmente essenciais à alma humana". E acrescenta: "Se eu atribuísse verdadeiramente uma posição privilegiada ao fato ético é evidente que o conflito entre o ético e o estético não teria para mim a milésima parte da importância que lhe reconheço" [pg. 16].

Em outras palavras, não faria sentido escrever uma obra em que se procura justamente harmonizar os dois princípios e encontrar uma posição de equílibrio para a cultura brasileira. Concluindo o prefácio, afirma que, ao contrário da Europa onde a tolerância liberal representou a vitória sobre o fanatismo de então (as perseguições religiosas na Inglaterra, Espanha, França), no Brasil "poucas são as pessoas capazes de uma fé espiritual que as torne propensas ao fanatismoA nossa intolerância é na sua quase totalidade de natureza política e está habitualmente associada a uma fé vascilante" [pg. 21].


Capítulo I - País novo e país subdesenvolvido

Mário Vieira de Mello começa pela constatação de que o Brasil é um país novo e subdesenvolvido.

Pela primeira qualidade, vislumbramos um futuro inteiro que se descortina; pela segunda, deparamos com a decepcionante realidade de "atraso" que nos manieta a um presente vergonhoso. Mas a emergência de uma corrente desenvolvimentista tão influente na década de 1960, quando simplesmente inexistia nos anos 1930, é um fator digno de nota. O que aconteceu de lá para cá?

Celso Furtado, um dos maiores expoentes do desenvolvimentismo, afirma que as modificações na estrutura produtiva da sociedade é que possibilitaram o despertar de uma consciência desenvolvimentista. Seria uma resposta possível: a natureza dos novos processos econômicos e dos interesses industriais da burguesia nacional (infra-estrutura) acarretaram mudanças no pensamento e na cultura das elites letradas do país (super-estrutura).

Mello propõe ainda que nos ocupemos por um instante sobre as explicações desenvolvimentistas para o problema da Abolição no Brasil. Analisemos a tese de Inácio Rangel, outro intérprete autorizado. Qualquer estudioso deve aproximar-se de seu objeto de estudo pelos vários ângulos possíveis: o econômico, o jurídico, o cultural, o político, o moral. Mas o livro Dualidade básica da economia brasileira de Ignácio Rangel defende que foi um erro considerar a abolição da escravidão como empecilho aos interesses econômicos da época.

É claro que interessava, diz Rangel, a "grupos ascendentes e decisivos da época" o fim da escravidão como medida de progresso a fim de constituir um mercado consumidor interno. Para Rangel, portanto, as idéias exógenas da Europa (lembremos que a Inglaterra foi a maior inimiga dos latifundiários brasileiros) serviram meramente como ornamento cultural a uma realidade mais crua. O sociólogo recusa-se assim a considerar outras variantes que condicionaram o 13 de maio de 1888, tais como a reputação internacional do Império, a crescente opinião pública interna desvinculada dos interesses de latifundiários - jornalistas, profissionais liberais, funcionários públicos - muito mais dirigida por critérios emocionais do que por mera racionalidade econômica (fator cultural). Por fim, há o imperativo moralmente superior que representa uma conquista jurídica da civilização, a liberdade humana. Os pensadores do desenvolvimento brasileiro, como se vê, traem-se descuidadamente ao expor o seu vezo economicista.

Quanto à origem dessas interpretações nos anos 1960, deve ser dito que nenhuma mudança estrutural profunda ocorreu no país a ponto de justificar esse "despertar da consciência".

Na verdade, o pai ideológico e avatar político de todos esses intelectuais engajados é Getúlio Vargas, que "não podendo no período da ditadura ser o chefe de um Estado democrático, na acepção política do termo, procurou ser o chefe de um Estado democrático na acepção econômico-social da palavra" [pg. 36]. Getúlio Vargas, por sua vez, não foi despertado por uma nova consciência; antes, tentou promover por todos os meios possíveis essa consciência desenvolvimentista, o que constitui, assim, verdadeiro trabalho de cúpula.

Vieira de Mello explica a razão de tanto empenho: "essa compreensão de que todas as outras necessidades do país encontrarão satisfação uma vez que o problema básico do desenvolvimento tenha sido resolvido os marcaria então como uma elite privilegiada, uma elite escolhida" [pg. 34]. Ou melhor, em termos mais claros: uma elite autorizada a dizer o que é ou não é patriótico, o que se deve ou não fazer em benefício do país.

E conclui o autor de Desenvolvimento e Cultura"um tal pensamento não se originou de novas condições econômico-sociais existentes no país, mas surgiu, como tantas outras idéias que influenciaram a vida nacional, no espírito de uma elite formada não pelo contato com as realidades práticas brasileiras mas por ensinamentos colhidos no estrangeiro" [pg. 37].

Provar a raízes exógena - tanto imediata como remota - do pensamento desenvolvimentista brasileiro é a matéria do Capítulo II, que resenharei no tópico seguinte.

O que é?

Criei um espaço para escrever. Não escrever para ser lido, mas para aprender a pensar.