Em Desenvolvimento e Cultura: o problema do estetismo no Brasil, Mário Vieira de Mello aborda o conflito entre o princípio ético e o princípio estético e a prevalência deste último em nossa cultura. Afirma o autor que o homem brasileiro - embora culto e instruído - apresenta uma tendência a julgar os conceitos teóricos segundo critérios emocionais ou estéticos. Tal tendência deve-se ao fato de o Brasil ter ingressado na Idade da Razão após o romantismo e, não possuindo uma tradição filosófica sólida, procurou atualizar-se quantos ao modismos em voga no Velho Continente: além do romantismo, o positivismo e, na época em que o livro foi escrito, o nacional-desenvolvimentismo.
A ideologia desenvolvimentista é, segundo Vieira de Mello, responsável por afastar o Brasil das grandes tradições espirituais da Civilização. Prometendo conduzir o país a um caminho de progresso, autonomia e autenticidade, o pensamento desenvolvimentista da década de 1960 arremete contra todas as iniciativas anteriores das elites brasileiras, acusando-as de simplesmente macaquear os usos europeus e, no plano cultural, dedicar-se demasiadamente ao beletrismo e à literatura de salão.
O autor concorda que o passado cultural brasileiro seja pobre, mas afirma que, apesar disso, é o nosso passado. A análise mais importante dos primeiros capítulos é a investigação que Vieira de Mello faz sobre as raízes do nosso pensamento desenvolvimentista, provando a vinculação estreita deste com o bom e velho marxismo. Uma ideologia fundada nos pressupostos de Karl Marx e Mannheim não pode, por definição, pretender-se "autêntica", genuína ou nacional, exatamente porque importa da mesma forma as idéias do estrangeiro.
O autor concorda que o passado cultural brasileiro seja pobre, mas afirma que, apesar disso, é o nosso passado. A análise mais importante dos primeiros capítulos é a investigação que Vieira de Mello faz sobre as raízes do nosso pensamento desenvolvimentista, provando a vinculação estreita deste com o bom e velho marxismo. Uma ideologia fundada nos pressupostos de Karl Marx e Mannheim não pode, por definição, pretender-se "autêntica", genuína ou nacional, exatamente porque importa da mesma forma as idéias do estrangeiro.
No Prefácio, o autor responde à critíca de Antônio Paim segundo quem a obra prefere o princípio ético ao estético, o que acarretaria inevitalmente uma posição moralista e parcial. Vieira de Mello responde que "o conflito entre o ético e o estético conduz à dilaceração espiritual justamente porque é constituído pela oposição de duas tendências irredutíveis uma à outra mas igualmente essenciais à alma humana". E acrescenta: "Se eu atribuísse verdadeiramente uma posição privilegiada ao fato ético é evidente que o conflito entre o ético e o estético não teria para mim a milésima parte da importância que lhe reconheço" [pg. 16].
Em outras palavras, não faria sentido escrever uma obra em que se procura justamente harmonizar os dois princípios e encontrar uma posição de equílibrio para a cultura brasileira. Concluindo o prefácio, afirma que, ao contrário da Europa onde a tolerância liberal representou a vitória sobre o fanatismo de então (as perseguições religiosas na Inglaterra, Espanha, França), no Brasil "poucas são as pessoas capazes de uma fé espiritual que as torne propensas ao fanatismo. A nossa intolerância é na sua quase totalidade de natureza política e está habitualmente associada a uma fé vascilante" [pg. 21].
Em outras palavras, não faria sentido escrever uma obra em que se procura justamente harmonizar os dois princípios e encontrar uma posição de equílibrio para a cultura brasileira. Concluindo o prefácio, afirma que, ao contrário da Europa onde a tolerância liberal representou a vitória sobre o fanatismo de então (as perseguições religiosas na Inglaterra, Espanha, França), no Brasil "poucas são as pessoas capazes de uma fé espiritual que as torne propensas ao fanatismo. A nossa intolerância é na sua quase totalidade de natureza política e está habitualmente associada a uma fé vascilante" [pg. 21].
Capítulo I - País novo e país subdesenvolvido
Mário Vieira de Mello começa pela constatação de que o Brasil é um país novo e subdesenvolvido.
Pela primeira qualidade, vislumbramos um futuro inteiro que se descortina; pela segunda, deparamos com a decepcionante realidade de "atraso" que nos manieta a um presente vergonhoso. Mas a emergência de uma corrente desenvolvimentista tão influente na década de 1960, quando simplesmente inexistia nos anos 1930, é um fator digno de nota. O que aconteceu de lá para cá?
Celso Furtado, um dos maiores expoentes do desenvolvimentismo, afirma que as modificações na estrutura produtiva da sociedade é que possibilitaram o despertar de uma consciência desenvolvimentista. Seria uma resposta possível: a natureza dos novos processos econômicos e dos interesses industriais da burguesia nacional (infra-estrutura) acarretaram mudanças no pensamento e na cultura das elites letradas do país (super-estrutura).
Pela primeira qualidade, vislumbramos um futuro inteiro que se descortina; pela segunda, deparamos com a decepcionante realidade de "atraso" que nos manieta a um presente vergonhoso. Mas a emergência de uma corrente desenvolvimentista tão influente na década de 1960, quando simplesmente inexistia nos anos 1930, é um fator digno de nota. O que aconteceu de lá para cá?
Celso Furtado, um dos maiores expoentes do desenvolvimentismo, afirma que as modificações na estrutura produtiva da sociedade é que possibilitaram o despertar de uma consciência desenvolvimentista. Seria uma resposta possível: a natureza dos novos processos econômicos e dos interesses industriais da burguesia nacional (infra-estrutura) acarretaram mudanças no pensamento e na cultura das elites letradas do país (super-estrutura).
Mello propõe ainda que nos ocupemos por um instante sobre as explicações desenvolvimentistas para o problema da Abolição no Brasil. Analisemos a tese de Inácio Rangel, outro intérprete autorizado. Qualquer estudioso deve aproximar-se de seu objeto de estudo pelos vários ângulos possíveis: o econômico, o jurídico, o cultural, o político, o moral. Mas o livro Dualidade básica da economia brasileira de Ignácio Rangel defende que foi um erro considerar a abolição da escravidão como empecilho aos interesses econômicos da época.
É claro que interessava, diz Rangel, a "grupos ascendentes e decisivos da época" o fim da escravidão como medida de progresso a fim de constituir um mercado consumidor interno. Para Rangel, portanto, as idéias exógenas da Europa (lembremos que a Inglaterra foi a maior inimiga dos latifundiários brasileiros) serviram meramente como ornamento cultural a uma realidade mais crua. O sociólogo recusa-se assim a considerar outras variantes que condicionaram o 13 de maio de 1888, tais como a reputação internacional do Império, a crescente opinião pública interna desvinculada dos interesses de latifundiários - jornalistas, profissionais liberais, funcionários públicos - muito mais dirigida por critérios emocionais do que por mera racionalidade econômica (fator cultural). Por fim, há o imperativo moralmente superior que representa uma conquista jurídica da civilização, a liberdade humana. Os pensadores do desenvolvimento brasileiro, como se vê, traem-se descuidadamente ao expor o seu vezo economicista.
É claro que interessava, diz Rangel, a "grupos ascendentes e decisivos da época" o fim da escravidão como medida de progresso a fim de constituir um mercado consumidor interno. Para Rangel, portanto, as idéias exógenas da Europa (lembremos que a Inglaterra foi a maior inimiga dos latifundiários brasileiros) serviram meramente como ornamento cultural a uma realidade mais crua. O sociólogo recusa-se assim a considerar outras variantes que condicionaram o 13 de maio de 1888, tais como a reputação internacional do Império, a crescente opinião pública interna desvinculada dos interesses de latifundiários - jornalistas, profissionais liberais, funcionários públicos - muito mais dirigida por critérios emocionais do que por mera racionalidade econômica (fator cultural). Por fim, há o imperativo moralmente superior que representa uma conquista jurídica da civilização, a liberdade humana. Os pensadores do desenvolvimento brasileiro, como se vê, traem-se descuidadamente ao expor o seu vezo economicista.
Quanto à origem dessas interpretações nos anos 1960, deve ser dito que nenhuma mudança estrutural profunda ocorreu no país a ponto de justificar esse "despertar da consciência".
Na verdade, o pai ideológico e avatar político de todos esses intelectuais engajados é Getúlio Vargas, que "não podendo no período da ditadura ser o chefe de um Estado democrático, na acepção política do termo, procurou ser o chefe de um Estado democrático na acepção econômico-social da palavra" [pg. 36]. Getúlio Vargas, por sua vez, não foi despertado por uma nova consciência; antes, tentou promover por todos os meios possíveis essa consciência desenvolvimentista, o que constitui, assim, verdadeiro trabalho de cúpula.
Vieira de Mello explica a razão de tanto empenho: "essa compreensão de que todas as outras necessidades do país encontrarão satisfação uma vez que o problema básico do desenvolvimento tenha sido resolvido os marcaria então como uma elite privilegiada, uma elite escolhida" [pg. 34]. Ou melhor, em termos mais claros: uma elite autorizada a dizer o que é ou não é patriótico, o que se deve ou não fazer em benefício do país.
Na verdade, o pai ideológico e avatar político de todos esses intelectuais engajados é Getúlio Vargas, que "não podendo no período da ditadura ser o chefe de um Estado democrático, na acepção política do termo, procurou ser o chefe de um Estado democrático na acepção econômico-social da palavra" [pg. 36]. Getúlio Vargas, por sua vez, não foi despertado por uma nova consciência; antes, tentou promover por todos os meios possíveis essa consciência desenvolvimentista, o que constitui, assim, verdadeiro trabalho de cúpula.
Vieira de Mello explica a razão de tanto empenho: "essa compreensão de que todas as outras necessidades do país encontrarão satisfação uma vez que o problema básico do desenvolvimento tenha sido resolvido os marcaria então como uma elite privilegiada, uma elite escolhida" [pg. 34]. Ou melhor, em termos mais claros: uma elite autorizada a dizer o que é ou não é patriótico, o que se deve ou não fazer em benefício do país.
E conclui o autor de Desenvolvimento e Cultura: "um tal pensamento não se originou de novas condições econômico-sociais existentes no país, mas surgiu, como tantas outras idéias que influenciaram a vida nacional, no espírito de uma elite formada não pelo contato com as realidades práticas brasileiras mas por ensinamentos colhidos no estrangeiro" [pg. 37].
Provar a raízes exógena - tanto imediata como remota - do pensamento desenvolvimentista brasileiro é a matéria do Capítulo II, que resenharei no tópico seguinte.